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domingo, 31 de agosto de 2014

Figueira seca

Não tenho nada
vejo os dias se passarem e o meu nada totalmente vazio
se esvaziar mais do que é possível um vazio se tornar.
A maternidade é uma dádiva da qual nunca fui tocada
Mãe é um nome que nunca ouvirei
Meu ventre tão fértil secou sem nunca germinar 

Não aconteceu o amor
Não aconteceu amizade
Não houve realização na profissão

Inveja até da minha dor tiveram
Ninguém sabe ou fingem não saber
que atrás de sorrisos corre solto a dor
da solidão
da total falta de tudo o que a alma possa alimentar-se.

Como uma planta que cresce formosa
mas permanece por muito tempo
esquecida
tem suas folhas constantemente arrancadas
flores e frutos não consegue ter
Não existiu ninguém que teve por mim amor
que regasse e semente plantasse

nenhuma família formei
secando no pé 
solitária
esperando um vento forte me arrancar do chão

Se o tempo pudesse voltar
Não pensaria duas vezes
Nem que na rua me jogassem
ou mais tormento do que vivi
eu sofresse
Faria quase tudo diferente

Pode ser que eu hoje mesmo fazendo tudo diferente
estivesse na mesma solidão
sentindo o mesmo vazio
e essa sorte madrasta que me açoita dia após dia ainda me açoitasse
Mas eu teria algo que ninguém, nem a morte me tiraria

Teria a lembrança de uma enorme barriga
de um choro no ouvido
de uma criança nos braços
um adulto hoje no mundo
e mesmo que não mais aqui estivesse ou longe de mim ficasse
em algum momento eu teria ouvido, eu teria sido
mãe.

A figueira seca
nunca esqueci desse versículo

Me tornei seca tal qual a figueira, mesmo com tanta fertilidade e amor que os anos levou eu ainda sonhei mas hoje até os sonhos estão secando.
Não tenho nada
absolutamente nada.
Não sou nada!

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