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(obra de ficção protegida por direitos autorais)



quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Encontro mudo ( Tempo de Orfeu )

Hoje ela acordou sentindo uma vontade de não sair da cama
mas preguiçosamente levantou-se
tomou seu banho, se vestiu, e quase não tocou no café
saiu apressada para sua aula.
Não sabia que mais uma vez seria coroada 
coroa de espinhos
Não encontrou um olhar sequer 
apoio só em sua própria dignidade
em sua convicção de que não importa
mais a hipocrisia, o cinismo e os interesses
vencendo a verdade, o justo e o correto
o que importa é saber que o certo é o certo 
mesmo que digam que o errado é o certo.
Voltou para casa mas decidiu sair
Embora não estivesse com animo para pedalar
resolveu caminhar
A rua, a estrada, o movimento, o bosque.
Andar só por andar e deixar os pensamentos voarem
encontrar-se no meio de tudo e ser um grão na multidão
é sempre uma forma de espantar os males que fazem doer
sem ninguém ver
Esquecida de si, sentou-se a olhar o nada.
Na verdade em nada focava e só vultos e formas por seus olhos abertos via
Só quando gritos de gol ouviu percebeu que estava a poucos metros da quadra
e seu coração quase parou quando lá no meio de tantos viu Orfeu.
Não estava interessada em deixar-se mergulhar em tórrida volúpia
mas permaneceu sentada focando agora a bola que de pé em pé era chutada, jogada.
Nada entende de futebol mas viu que o jogo parou e que Orfeu dela todo suado se aproximava.
Diferente do que ela esperava e receava ele não a puxou para seu corpo, não agarrou-a pelos cabelos.
Ele a beijou suavemente na testa, sentou-se a seu lado e perguntou se ela viu a jogada que ele havia feito.
Ela nada respondeu pois não queria dizer que apenas a bola rolando de pé em pé olhara, então apenas sorriu.
Ele como um garoto entusiasmado contava sorridente sobre seu desempenho enquanto enxugava o rosto com a camiseta e ela parou por um momento para olhar como naquele instante ele estava diferente.
Ele vestiu a camiseta e segurou sua mão, olhou-a nos olhos e simplesmente disse como era legal ela estar ali.
Tudo parecia irreal até ele levantar, estender-lhe a mão e a convidar a caminhar.
Eles caminharam calados, na porta do bosque ele a abraçou forte, beijou-lhe suavemente os lábios e se separaram, cada um foi para o seu lado do caminho, novamente sem promessas mas ela com uma estranha sensação de conforto de ter sido amada muito mais nesse estranho encontro quase mudo.





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